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Construindo o entendimento

Sei que prometi um post sobre a importância do olhar consciente, mas resolvi adiar essa tarefa, pelo menos provisoriamente. Essa decisão surgiu quando, ao longo dessa semana, conversando com alguns alunos, pude perceber que alguns traziam como problema maior o fato de, muitas vezes, não conseguirem entender o que está sendo pedido em um tema de redação ou mesmo o que determinados textos (sejam eles verbais, não-verbais ou híbridos) produzem quanto ao seu significado. A verdade é que a leitura de um texto, de maneira geral, pode se tornar um grande complicador para a feitura de uma boa redação, em especial se pensarmos em uma estrutura-padrão de tema que é composta de uma coletânea e de uma proposta em si. Dessa forma, estipularei aqui três passos que podem ajudar a, se não eliminar, pelo menos reduzir as dificuldades de entendimento no ato de ler.

Passo 1: Identificar marcas contextuais

Provalvemente você já deve ter reparado, ao longo de sua vida, que os lugares, as épocas e os autores traduzem determinados paradigmas textuais. Por isso, a primeira coisa a ser feita para uma boa leitura é depreender tudo que cerca o texto. É só analisar: um texto escrito em 1930, nos Estados Unidos, sobre economia tende a ter um peso diferente de um que tenha sido feito em 1969 no Brasil, tratando do mesmo assunto. Da mesma forma, um texto de autoria de Álvares de Azevedo carregaria um perfil específico que o diferenciaria de um feito por Monteiro Lobato, mesmo que ambos resolvessem buscar, hipoteticamente, falar do mesmo assunto. Repare, apenas, que isso não é uma regra, pois um autor pode perfeitamente fugir aos seus padrões ou um texto pode soar “atemporal”. Machado de Assis, por exemplo, foi mestre em (se) reinventar. O que importa é que você entenda que tais mecanismos podem significar uma ajuda, mas não há nenhuma garantia de que eles são o suficiente para o sucesso da leitura.

Passo 2: Olhar querendo ver

Sejamos realistas: quando estamos diante de um texto que exige mais de nossa interpretação, levando, inclusive, a um processo reflexivo, somos acometidos, em muitos momentos, de uma preguiça intelectual considerável. A partir daí, fazemos apenas a leitura “padrão”, desinteressada, que captura aquilo que salta aos olhos, mas não se preocupa em ver as famosas entrelinhas. E sim, eu sei que a dificuldade existe exatamente aí, e que o que você quer é saber como se faz para conseguir ir além do óbvio. Mas constatar a dificuldade é o primeiro passo para resolver. O segundo, é entender que essa leitura mais completa só vem pela própria persistência. Não adianta achar que entender um Van Gogh ou um Guimarães Rosa é algo que se faz de primeira, sem esforços. Por isso, é importante que você esteja sempre em contato com obras desse tipo, tentando não desistir à primeira dificuldade. Aproveite esse maravilhoso meio que é a internet e faça um teste: busque uma obra de arte famosa de um pintor, passe alguns minutos a observando, anote suas impressões e, por último, compare a sua análise a uma outra, já existente na rede. Nesse confronto você poderá validar suas idéias e incorporar outras, a partir de detalhes que passaram sem ser notados.

Passo 3: Associar as partes ao todo

É fato que as leituras de características individualizadas são úteis, para não dizer essenciais. Contudo, lembre-se de que você jamais pode perder o foco da unidade textual. Isso significa dizer que, ainda que os aspectos mínimos façam diferença, no final o que vai ser explorado, de fato, não é apenas um corte, mas a totalidade da obra. Assim, sua capacidade de associação torna-se fundamental para o entendmento pleno do sentido mais estrito. Em uma analogia bastante simplista, seria como você brincar de ligue-os-pontos; unindo as partes certas, a imagem formada é maravilhosa. No entanto, basta um traço fora do lugar para que todo o desenho seja comprometido. A melhor forma de garantir que isso seja realizado de forma correta é traçar uma espécie de roteiro, em que você situe cada parte analisada e depois as una levando em conta semelhanças ou oposições. Palavras repetidas e imagens complementares costumam ser bons pontos de análise, para ficarmos em duas evidências. O ideal, entretanto, é que você crie a sua própria forma de roterização, pré-definindo que aspectos você sempre irá observar primeiro. Afinal, não estamos aqui para convencionar demais, concorda?

Boa prática e até a próxima!

Por uma leitura mais livre

Não é novidade que, em ano de vestibular, o tempo torna-se curto e as atribulações, variadas. Contudo, uma prática que jamais deve ser abandonada – e, em muitos casos, requer, inclusive, ser criada – é aquela que diz respeito à formação do tão famoso hábito da leitura. Pode parecer que estou aqui falando do óbvio, de algo que, desde que você nasceu, é repetido à exaustão, mas parece que a maior parte dos alunos não consegue perceber que, antes de saber escrever, é preciso saber ler. E sim, eu sei que isso está longe de ser uma tarefa fácil. No entanto, de verdade, também não deveria ser uma atividade tão penosa.

De maneira simplista, poderiamos entender ler como ser capaz de associar significados a determinadas palavras. De forma mais complexa, deveríamos saber que ler é, principalmente, atribuir valores de compreensão e de interpretação ao que está sendo assimilado, de preferência usando, para isso, o que chamaremos de visão crítica. Esses últimos conceitos, porém, vou deixar para explorar no próximo post, quando falaremos da importância do olhar consciente. Por agora, prefiro que pensemos na leitura como uma atividade lúdica, capaz de despertar prazer e ser absolutamente natural no seu cotidiano.

Para isso, é preciso corrigir um erro histórico, o de definir o que é uma boa leitura. Essas verdades absolutas que afirmam que Paulo Coelho é ruim, Machado de Assis é bom, Harry Potter é bobo, jornal é sempre tendencioso e quadrinhos são idiotices constituem, no fundo, mais uma forma de preconceito do que, propriamente, um cuidado com a qualidade do que é lido. Não é o caso, claro, de dizermos aqui que Machado de Assis não tem valor (quem me conhece sabe da minha absoluta predileção pelo mestre), mas de vermos que, no fundo, o simples fato de se estar em contato com o universo das palavras já constitui um aprendizado. Afinal, quem há de negar, por exemplo, que a retomada da paixão juvenil pela leitura por meio das histórias de Harry Potter, em plena era da internet, representa um sopro de esperança em uma geração que não quer perder tempo lendo? Talvez seja o caso de saber estimular exatamente aí, onde se encontra o interesse específico, em vez de forçar um tradicionalismo que traz a leitura das obras balizadas pelo tempo e pela crítica especializada como parte das obrigações de um bom leitor.

No fundo, estamos deixando de perceber o óbvio: o tempo passa, os interesses mudam e o público-leitor agora apresenta uma outra forma de relação com a leitura, mais personalizada. Acompanhar isso é, acima de tudo, manter viva a idéia de que ler é essencial por si só, sem uma cartilha do que é imprescindível e do que é descartável. “A César o que é de César”, meus amigos. Formar bons leitores significa formar leitores cientes de que podem escolher seu próprio caminho e encontrar seu próprio espaço. Sejamos a favor de uma leitura mais livre. Se o hábito for instaurado, o restante virá com o tempo. Pode apostar.


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