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Por que Redação?

A obrigação de escrever uma redação para conseguir uma vaga na universidade gera diferentes reações nos vestibulandos.

Para os mais afeitos à leitura e à escrita, a tarefa inicialmente não assusta. Pelo contrário, soa quase como um trunfo. Com as aulas, entretanto, muitos deles descobrem a necessidade de seguir certos modelos, o que cria uma espécie de sensação de castração. Mesmo que esses “padrões” estejam longe da arbitrariedade e se justifiquem pela necessidade de parâmetros de comparação e pela sua própria eficiência, não são poucos os vestibulandos que deixam de experimentar o prazer e a desenvoltura da escrita. Resultado: passam a questionar a lógica dessa atividade. Para que dedicar um ano inteiro a tornar aparentemente mais difícil a produção textual?

Por outro lado, os menos familiarizados com a leitura e a escrita freqüentemente sentem calafrios: depender da qualidade do texto para chegar ao ensino superior parece um desafio quase insuperável. Afinal, não levar muito jeito para matemática, por exemplo, não é um problema tão grave se o aluno deseja uma carreira na área de humanas. Da mesma forma, não é o fim do mundo saber apenas o necessário em biologia se o objetivo é um curso na área de exatas. Como a redação pesa – muito – igualmente para todos, lamúrias e questionamentos acerca dessa “justiça” tornam-se corriqueiros. Para que dedicar um ano inteiro a uma tarefa supostamente desnecessária para a minha profissão?

Para dar uma resposta aos dois grupos, basta citar o grande Othon Moacyr Garcia: “aprender a escrever é aprender a pensar”. Tudo bem: há várias teorias na Lingüística que discutem a relação entre o pensamento e as diversas formas de comunicação. Não faz sentido entrar nessa questão aqui. Em termos de vestibular, contudo, um bom curso de redação trabalha com forma e conteúdo, por isso é, indiscutivelmente, capaz de contribuir para o desenvolvimento da comunicação e da expressão, além de estimular a criação e a organização das idéias.

Ao exercitar a forma – a adequação gramatical, os recursos coesivos etc. – o estudante desenvolve capacidades exigidas em qualquer área, como a clareza, a correção e a objetividade. Ninguém trabalha de maneira isolada e qualquer ruído na comunicação pode implicar problemas. Saber se comunicar de maneira eficiente é um diferencial em qualquer profissão. Um bom médico precisa saber conversar com seu paciente. Um advogado só é competente se conseguir defender com clareza seu ponto de vista diante de um juiz. Um engenheiro precisa redigir relatórios e se comunicar com clientes. Pode parecer chato decorar a diferença entre “ir ao encontro de” e “ir de encontro a” uma idéia, mas se o profissional não souber a diferença, como interpretar se um texto que utiliza essas expressões apóia ou contradiz sua opinião?

Por outro lado, devido à valorização dos ensinos superior e técnico, a maioria das escolas opta por uma formação mais conteudista. Embora seja justificável, isso leva muitos colégios a não cumprir as funções mais amplas na educação, como a criação de alicerces morais, a consolidação da cidadania e o estímulo à reflexão e à participação política. Nesse sentido, por também trabalharem com “o que se escreve” – e não apenas com o “como se escreve” –, as aulas de redação tendem a desempenhar um importante papel social. Discussões de temas atuais, por exemplo, estão longe de meros exercícios para o vestibular.

Resumo da ópera: se o advento da escrita é um dos maiores marcos da vida humana na Terra – a ponto de separar a “pré-história” da “história” –, não parece inteligente desprezar sua importância no dia-a-dia. Até mesmo para o aluno mais pragmático, investir na disciplina de redação, no mínimo, vai gerar notas melhores e melhorar o seu desempenho na compreensão de enunciados e na expressão de respostas discursivas de biologia, história, geografia, português etc.

Um forte abraço

Por uma leitura mais livre

Não é novidade que, em ano de vestibular, o tempo torna-se curto e as atribulações, variadas. Contudo, uma prática que jamais deve ser abandonada – e, em muitos casos, requer, inclusive, ser criada – é aquela que diz respeito à formação do tão famoso hábito da leitura. Pode parecer que estou aqui falando do óbvio, de algo que, desde que você nasceu, é repetido à exaustão, mas parece que a maior parte dos alunos não consegue perceber que, antes de saber escrever, é preciso saber ler. E sim, eu sei que isso está longe de ser uma tarefa fácil. No entanto, de verdade, também não deveria ser uma atividade tão penosa.

De maneira simplista, poderiamos entender ler como ser capaz de associar significados a determinadas palavras. De forma mais complexa, deveríamos saber que ler é, principalmente, atribuir valores de compreensão e de interpretação ao que está sendo assimilado, de preferência usando, para isso, o que chamaremos de visão crítica. Esses últimos conceitos, porém, vou deixar para explorar no próximo post, quando falaremos da importância do olhar consciente. Por agora, prefiro que pensemos na leitura como uma atividade lúdica, capaz de despertar prazer e ser absolutamente natural no seu cotidiano.

Para isso, é preciso corrigir um erro histórico, o de definir o que é uma boa leitura. Essas verdades absolutas que afirmam que Paulo Coelho é ruim, Machado de Assis é bom, Harry Potter é bobo, jornal é sempre tendencioso e quadrinhos são idiotices constituem, no fundo, mais uma forma de preconceito do que, propriamente, um cuidado com a qualidade do que é lido. Não é o caso, claro, de dizermos aqui que Machado de Assis não tem valor (quem me conhece sabe da minha absoluta predileção pelo mestre), mas de vermos que, no fundo, o simples fato de se estar em contato com o universo das palavras já constitui um aprendizado. Afinal, quem há de negar, por exemplo, que a retomada da paixão juvenil pela leitura por meio das histórias de Harry Potter, em plena era da internet, representa um sopro de esperança em uma geração que não quer perder tempo lendo? Talvez seja o caso de saber estimular exatamente aí, onde se encontra o interesse específico, em vez de forçar um tradicionalismo que traz a leitura das obras balizadas pelo tempo e pela crítica especializada como parte das obrigações de um bom leitor.

No fundo, estamos deixando de perceber o óbvio: o tempo passa, os interesses mudam e o público-leitor agora apresenta uma outra forma de relação com a leitura, mais personalizada. Acompanhar isso é, acima de tudo, manter viva a idéia de que ler é essencial por si só, sem uma cartilha do que é imprescindível e do que é descartável. “A César o que é de César”, meus amigos. Formar bons leitores significa formar leitores cientes de que podem escolher seu próprio caminho e encontrar seu próprio espaço. Sejamos a favor de uma leitura mais livre. Se o hábito for instaurado, o restante virá com o tempo. Pode apostar.


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