Cursinho pré-vestibular é EFEITO, não CAUSA.
O que vai acontecer com os cursinhos pré-vestibulares?
HADDAD: Hoje há muitos tipos de cursinhos pré-vestibulares. Já há cursinhos voltados para o atual Enem. Da mesma maneira que se criaram essas entidades voltadas para o Enem, o novo Enem ensejará esse tipo de movimento. Agora, quero crer que haverá um enfraquecimento desse tipo de proposta. O mundo não trabalha com o conceito de cursinho pré-vestibular. É uma anomalia brasileira em virtude de nós não termos alterado a tempo o formato atual de vestibular. Ele é próprio dessa anomalia. Com o novo formato, eu penso que alguns vão se adequar e haverá espaço ainda para isso, mas eu penso que o ensino médio é que será o grande beneficiado desse processo, porque vai poder se reestruturar de uma maneira muito mais adequada.
(trecho de entrevista publicada em O Globo on-line em 12/04/2009 – por Demétrio Weber)
Cursinho pré-vestibular é EFEITO, não CAUSA.
Pode até ser que, de maneira geral, a proposta de um novo modelo de acesso às universidades federais venha a promover uma maior democratização do acesso ao nível superior. Sou bastante cético a esse respeito.
O que me chamou a atenção neste trecho da reportagem com o Ministro da Educação Fernando Haddad, publicada no jornal O Globo, foi a demagogia e a inconsistência.
Tudo bem, sou professor de cursinho, mas sou, antes de tudo um educador, e, antes ainda um ser pensante.
Pensemos:
1 – O ministro diz que o ensino médio é o grande beneficiado com as mudanças. Como assim? Como uma prova totalizante e superficial pode estimular a melhoria da educação em qualquer nível?
2 – Qual é a “maneira muito mais adequada” a que se refere o ministro? (Nem bois dormem com essa conversa!)
3 – Se uma prova pode ter tal efeito, considerando o nível dos vestibulares da maioria das universidades federais, era de se esperar que a qualidade do ensino médio no Brasil fosse espetacular.
4 – Concordo que o vestibular é uma anomalia, mas será que o ministro não sabe de onde vem essa anomalia?
Deixe-me explicar:
-Segundo dados do IBGE, em 1980, cerca de 25 milhões de brasileiros tinham entre 15 anos e 24 anos de idade.
- Em 2000, esse número atingia a casa de 35 milhões. Percebe-se, no Brasil, um processo de amadurecimento da população.
- As altas taxas de crescimento vegetativo das décadas iniciais do processo de industrialização-urbanização hoje se manifestam através da expansão da população jovem, especificamente, nessa análise, dos jovens em idade universitária.
- Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), ligado ao MEC, em 1981, o número de matriculados nas universidades públicas federais totalizava exatamente 1.386.792 estudantes, contra 2.377.715 do ano de 1999.
- Para todos os efeitos, um avanço considerável, apesar da carência de investimentos estruturais, que não acompanharam a expansão de vagas.
Você prestou atenção no contraste brutal dos dados?
O número de brasileiros em idade universitária aumentou 10 milhões, contra pouco mais de 990.000 vagas em universidades.
Não é de se estranhar a explosão de universidades particulares, ou como gostam os pedagogos, a “mcdonaldização do ensino”.
Enquanto isso…
A qualidade da educação básica no Brasil vai de mal a pior, ou seja, alunos que saem da rede pública – a maioria – não tem condições de realizar as quatro operações básicas da aritmética, que dirá passar em um vestibular federal.
O sucateamento da educação pública é responsabilidade dos próprios governantes que agora vem culpar a figura imaginária do “Monstro do Cursinho Pré-vestibular”.
Agora temos a fórmula que o ministro, cinicamente, omitiu em sua entrevista, qual seja:
- Um aumento substancial de estudantes em idade universitária, sem expansão de vagas = concorrência acirrada;
- sistema educacional abandonado e apodrecido = aluno sem preparo = busca do tempo perdido (leia-se, cursinho pré-vestibular)
Está provado: cursinho pré-vestibular é EFEITO, não CAUSA.
